Há quatro anos que o professor desta freguesia sr. José Lopes da Costa, proporciona, com o auxílio da Caixa Escolar, uma excursão anual aos alunos sócios da mesma Caixa, a que se associam os melhores elementos da nossa terra.
Pequenos e adultos aguardam com ansiedade esse passeio, com o qual se procura dar aos pequenos escolares, além dumas horas de verdadeira alegria, conhecimento exacto da bela terra portuguesa, sempre tão cheia de encantos naturais, mas agora alindada pela patriótica e sábia administração do governo do Estado Novo.
Guerra Junqueiro, que a classificou de – a mais formosa e linda -, se ainda hoje fosse vivo teria escassez de termos para condignamente a classificar.
Foi, pois, no passado domingo a 4ª excursão promovida sob o patrocínio da Caixa Escolar.
A 1ª foi a Braga e seus encantadores subúrbios; a 2ª, a Valência; a 3ª a Aveiro e a de ontem foi ao Gerês com visita às terras do percurso.
As camionetas chegaram aqui às sete e meia. Os excursionistas também foram pontuais e traziam as suas cestas bem providas. Na excursão tomaram parte os seguintes senhores, com as respectivas famílias: pároco da freguesia; componentes da Junta – José Baptista da Costa, José Amorim e Manuel Ferreira Amorim; regedor – Joaquim Gomes da Silva; dr. Carlos Pinto Ferreira, Carlos G. da S. Capela, Manuel G. da S. Capela, Adelino Gomes da Costa, Abílio da C. Araújo, etc., e muitas crianças da escola.
Às oito horas as camionetas dão sinal de partida e, mesmo com velocidade moderada, depressa atingem Famalicão e depois Braga, terras que nos eram bastante familiares. Depois Ponte do Bico, onde corre o Cávado, que deixava ver o seu leito bastante descoberto. Povoações lindas, casas e muros – donde pendiam flores – muito caiados. A seguir Carrazade, e Rendufe ao lado com o seu mosteiro de duas torres. Em breve alcançamos Amares, linda e bem cuidada, vaidosa do seu remoto avoengo Gualdim Pais, a quem, num preito justo de gratidão, levantaram uma estátua na melhor praça daquela vila.
A flora, como num filme, toma outro aspecto, pois as oliveiras, em ranchos começam agora a surgir nos terrenos que marginam a estrada de mistura com carvalhos, em grande profusão. Aparece depois Dornelas. A sua igreja, com uma só torre, emerge lá em cima, muito caiada no meio do arvoredo verdejante. A seguir a igreja de Santa Marta, com a sua torre muito esguia. Grupos de homens e mulheres conversam sossegadamente, usando a mesma indumentária da gente da nossa terra.
Povo respeitador, pois cumprimenta-nos com um sorriso de bondade, que nós retribuímos com sinceridade.
De repente, numa curva de estrada, aparece-nos a igreja do Bouro, com duas torres, com o seu casario anexo mal-tratado, quase em ruínas. Revela-nos ainda, porém no seu aspecto exterior, a opulência dos seus moradores em tempos idos. Percorremos as suas salas com cuidado, pois tudo aquilo ameaçando ruína, é agora habitação quase exclusiva de animais daninhos.
Aqui, tomamos uma estrada, à esquerda, para visitarmos o Mosteiro da Abadia. Estrada estreita e íngreme, mas que os motores vencem com relativa facilidade. No percurso desta ladeira encontramos o reverendo Abade Paulo Lourenço Rodrigues, pároco no concelho de Amares, que, montado numa anafada égua seguia também para o santuário. Chegamos.
Os que não conheciam a Abadia admiram aquele reconcavo de natureza, aquele oasis no meio da montanha. Havia ali missa nova, a ser celebrada pelo reverendo João de Deus, também conhecido pelo Padre Pascoal, de Santa Isabel do Monte. Por isso se viam ali tantos eclesiásticos…
Visitamos o santuário, cercado de montanhas, oramos e meditamos na nossa pequenez antes aqueles gigantes de terra e pedra que penetravam nas nuvens e que nos cercavam.
Votamos a Bouro e tomamos a direcção de São Bento da Porta Aberta.
Passamos Dornes com a sua igreja asseada. Pela encosta de um monte, à direita, descia apressado um ribeirinho, que ia juntar-se lá muito no fundo ao rio Caldo, que se arrastava entre penedos. E então aqui o cenário é grandioso, empolgante.
À nossa direita, vasto horizonte limitado ao longe pelas montanhas cobertas de arvoredo verdejante e profuso. Dava-nos a impressão do arvoredo do Bom Jesus de Braga, em fantásticas dimensões.
E em frente, num contraste flagrante, o Gerês escalvado, de aspecto carrancudo, de quem um jornalista disse há anos:
Eu sou aquele inculto e grande monte,
A quem vós outros chamais o do Gerês.
É das minhas entranhas que promanam,
As águas que em baixo brotar vez.
E as camionetas lá iam seguindo na direcção de São Bento. Terreno íngreme, mas que os motores vão vencendo sem esforço de maior. Aqui todos ficam bem impressionados porque o local é lindo, o horizonte é largo e a povoação denuncia, – com o seu coreto elegante, com as suas avenidas de tílios e com o seu parque bem cuidado – civilização e progresso.
Mas os excursionistas, unanimente, proclama a necessidade de se atender as solicitações do estômago, tanto mais que eram treze horas. E as cestas descem dos tejadilhos, das camionetas e todos pressurosos, se dirigem para o parque. Momentos de bem-estar, de alegria, de satisfação. Harmonia completa e perfeita fraternidade. Os sinos repicam modinhas conhecidas e trechos do filme A Aldeia da roupa branca.
Depois visitamos templo e cumprimos o nosso dever de cristãos.
Mas o tempo urgia, e o programa tinha de ser cumprido. Por isso de novo retrogradamos. As camionetas avançam e em breve alcançamos o Gerês.
Povoação linda e asseada, – um éden no meio da natureza bravia. Aqui demoramos um bom bocado a visitar a famosa estância termal e a fazermos as nossas compras – recordações – e voltamos quase com saudade à povoação do rio Caldo. E agora começa a escalada abrupta da ladeira do mesmo nome. São oito quilómetros de ascensão difícil em que os motores rangem e um deles manifesta certa indecisão. O abismo que se nos desenha do lado direito é horroroso.
Mas, briosamente, as camionetas lá chegam ao cimo da ladeira pavorosa do Rio Caldo onde ainda adeja a água e vive o lobo. E naquelas alturas incomensuráveis, escondida no meio do arvoredo pujante, vê-se uma povoação que nos é denunciada por uns pequeninos campos de milho, pois onde a cultura é possível mesmo em pequenas dimensões, logo o povo estabelece o seu poiso e ali se aclimata.
E os motores lá arrancam para Póvoa de Lanhoso, que é asseada e onde são evidentes os anseios de progresso. Um edifício de grandes linhas ali se vê em construção e que nos dizem ser os Paços do Concelho. O jardim também é bonito e asseado. Mas o sol vai baixando no horizonte. Fazem-se compras e avançamos para as Taipas.
Aqui de novo se atacam, com energia e decisão, os farnéis ainda com bastantes provisões. O lugar presta-se. Arvoredo, relvado.
Permutam-se as vitualhas, com franqueza, com liberalidade.
Mas a tarde com grande saudade de todos vai-se escoando lentamente.
Por isso, terminado, com muita calma o repasto, lá seguimos para Guimarães afim de visitarmos o Castelo onde ainda há pouco se celebraram as mais patrióticas festas.
Contornámo-lo com devoção e carinho, e memoramos o papel importante que ele desempenhou no começo da nossa nacionalidade. Foi uma lição de história feita ao vivo às crianças e a alguns adultos, sendo também ali posto em foco o quanto o governo de Salazar tem feito por Portugal, tão evidentemente patenteado nas belas estradas que percorremos, nas escolas lindas que vimos, nos diversos edifícios em construção que presenciamos e até naquele e noutros castelos restaurados que atestarão à posteridade a nossa grandeza passada.
E assim os alunos sócios da Caixa Escolar tiveram ocasião de ver a terra-berço da nossa nacionalidade, onde há oitocentos anos se desenrolaram factos que por completo influenciaram nos destinos da nossa Pátria. Tudo isto foi dito aos alunos excursionistas, que contornaram aquele vetusto monumento de granito com curiosidade e admiração, assim como admiraram a estátua do 1º rei de Portugal – o valoroso D. Afonso Henriques.
A noite vinha descendo.
Atravessamos a cidade para onde emergiam ranchos que regressavam das aldeias, cantando. Passamos por Negrelos, onde vimos as diversas fábricas que fazem a felicidade daquelas terras.
As crianças cantavam. Depois Santo Tirso, muito iluminada. A seguir Trofa, Fornelo, Macieira e… Junqueira.
29-7-940. – C.